Economista ligado à criação do Plano Real defende redução da taxa em 12 meses. Debate envolve dívida pública, inflação e o custo do crédito para famílias e empresas.
Por Gabrielle Tricanico | ECONOMIA E POLÍTICA | BRASIL
A proposta de reduzir a taxa básica de juros para aproximadamente 7,5% ao ano colocou o economista André Lara Resende no centro do debate econômico neste domingo, 1º de novembro. Mas a informação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) receberia o formulador do Plano Real ganhou uma atualização decisiva: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que exista reunião agendada e afirmou que o tabelamento dos juros não está na mesa do presidente. A declaração foi publicada pela Folha de S.Paulo.
A manifestação exige cautela com publicações que apresentam o encontro como confirmado ou a redução da Selic como decisão do governo. Até aqui, o que existe é uma proposta de mudança na condução econômica, acompanhada de divergências sobre seus efeitos e sua viabilidade.
Por trás da discussão está uma questão que chega diretamente ao cotidiano: como reduzir o peso dos juros sem colocar em risco o poder de compra da população?
O que Lara Resende propõe
Em artigo publicado em 25 de setembro, Lara Resende defende uma reorganização da relação entre política fiscal — arrecadação, despesas e endividamento — e política monetária, responsável pelas condições de juros e liquidez da economia.
O plano prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com metas coordenadas para um horizonte de quatro a cinco anos. Nesse desenho, o Banco Central anunciaria uma trajetória gradual de redução da Selic para perto de 7,5% ao ano em aproximadamente 12 meses.
Depois da transição, a taxa ficaria, em condições normais, entre a meta de inflação de 3% e o crescimento nominal potencial estimado pelo economista em cerca de 5,5%. Exceções dependeriam de autorização do conselho proposto. Trata-se, portanto, de uma alteração do regime de política econômica, com alcance maior do que um corte pontual de juros.
Por que a dívida pública está no centro da discussão
O argumento de Lara Resende é que os juros elevados têm papel determinante no crescimento do endividamento público. Na avaliação dele, o debate fiscal concentra atenção excessiva nas despesas que excluem o pagamento de juros e subestima o peso dos encargos financeiros.
Segundo a descrição da proposta publicada pelo Times Brasil, o economista estima que reduzir o custo médio da dívida de perto de 13% para 7,5% poderia produzir economia próxima de quatro pontos percentuais do Produto Interno Bruto por ano, depois de a mudança ser incorporada à estrutura do endividamento. Essa é uma projeção do autor, sujeita às condições de implementação, e não uma economia garantida.
Há uma diferença essencial: a taxa básica pode mudar em uma reunião, mas o custo de toda a dívida não acompanha essa alteração imediatamente. Títulos têm prazos, remunerações e condições diferentes. Por isso, estimativas de alívio fiscal precisam considerar a composição do endividamento e o tempo necessário para a transmissão dos efeitos.
O risco de o dólar pressionar os preços
A principal preocupação com uma redução acelerada dos juros envolve a reação dos investidores e do câmbio.
O próprio Lara Resende reconhece que o movimento pode estimular saída de capitais, desvalorizar o real e provocar pressão inflacionária no curto prazo. Como resposta, propõe utilizar reservas internacionais para conter a pressão cambial durante a transição.
O contraponto é que intervenções cambiais não eliminam, por si só, dúvidas sobre a trajetória das contas públicas. Economistas e gestores ouvidos pela Folha questionam se a redução dos juros sob esse novo arranjo preservaria a credibilidade econômica e a autonomia do Banco Central. Também alertam para o risco de depreciação da moeda e de aumento da inflação.
A divergência está no diagnóstico e no caminho: quanto do desequilíbrio vem do custo dos juros e quanto depende da confiança na capacidade do Estado de administrar receitas, despesas e dívida?
Como esse debate chega às regiões de São Paulo
Na leitura regional, o tema interessa diretamente ao comércio, à indústria e aos prestadores de serviços da capital, do Grande ABC, do Alto Tietê, do Vale do Paraíba, do litoral e do interior paulista.
Uma redução sustentável do custo do crédito pode facilitar a compra de equipamentos, o financiamento de estoques e o planejamento de novos investimentos. Para famílias endividadas, pode melhorar as condições de renegociação e de contratação de novos empréstimos.
Esses benefícios, porém, dependem da transmissão da queda da taxa básica às operações bancárias. A Selic não corresponde à taxa final cobrada do consumidor, que também incorpora risco de inadimplência, custos, tributos e margens das instituições.
No outro sentido, uma alta do dólar pode pressionar empresas que dependem de máquinas, componentes e insumos importados. Parte desse custo pode chegar aos preços e reduzir o ganho que consumidores esperariam de um crédito mais barato.
O que muda agora para o cidadão
A proposta em discussão não altera contratos, prestações ou limites de crédito. Também não representa anúncio de Selic a 7,5%.
Para quem procura financiamento ou renegociação, a referência prática continua sendo comparar o Custo Efetivo Total (CET), que reúne juros e demais encargos, e verificar se a prestação cabe no orçamento. Uma expectativa de redução futura dos juros não deve ser tratada como condição já disponível.
O debate merece profundidade porque envolve duas necessidades concretas: crédito acessível e estabilidade de preços. Para a população, o resultado relevante será aquele que permitir produzir, consumir e investir com previsibilidade, preservando o valor do salário.
