“Orun – O Mundo dos Orixás”, de Thiago Xavier, aproxima o público da beleza do sagrado afro-brasileiro por meio de toques, danças e cores; obra está disponível gratuitamente
Por Gabrielle Tricanico | GDN Music | Cultura e ancestralidade
A beleza dos orixás ganhou espaço nas telas e ultrapassou a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube. Dirigido pelo cineasta Thiago Xavier, o curta-metragem “Orun – O Mundo dos Orixás” apresenta uma experiência audiovisual dedicada à ancestralidade, à espiritualidade e à riqueza cultural das tradições afro-brasileiras.
O alcance foi divulgado em reportagem do Brasil de Fato. Por trás do número, há uma discussão que merece atenção: o direito de ver a própria fé representada com dignidade, sensibilidade e cuidado artístico.
Lançada em 2024, a produção apresenta 16 orixás em uma narrativa conduzida por movimentos, musicalidade e elementos visuais. O recorte escolhido pelo filme aproxima o espectador de referências do candomblé e convida a conhecer um universo que atravessa a formação cultural brasileira.
Toques, danças e cores como caminhos de conhecimento
A proposta de “Orun” é construir uma aproximação sensorial com o sagrado. A dança, os figurinos e os toques ajudam a apresentar as divindades e suas relações com a natureza, a memória e a experiência humana.
Esse encontro entre cinema e espiritualidade tem especial relevância para a GDN Music. A música pode carregar pertencimento, preservar histórias e comunicar conhecimentos transmitidos entre gerações. Ao lado dos gestos e das cores, ela integra a linguagem escolhida para apresentar os orixás ao público.
É preciso, porém, respeitar a profundidade dessas tradições. O universo dos orixás não se esgota em uma obra audiovisual, e as práticas e interpretações variam entre nações, comunidades e casas religiosas. O filme oferece uma porta de entrada, que pode despertar interesse por uma escuta mais atenta de quem vive e preserva esses saberes.
Arte e representatividade diante do racismo religioso
Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, Thiago Xavier explicou que desejava aproximar as pessoas da espiritualidade de matriz africana por meio da arte. Sua proposta reúne celebração da ancestralidade e enfrentamento dos estigmas que atingem essas religiões.
A escolha de apresentar o sagrado com beleza e dignidade tem uma dimensão pública. Uma representação cuidadosa pode abrir espaço para perguntas, desfazer associações preconceituosas e incentivar o reconhecimento da humanidade das comunidades de terreiro.
O alcance de 1 milhão de visualizações, entretanto, não permite medir quantas pessoas mudaram de opinião. O que ele demonstra é a circulação expressiva de uma produção independente dedicada a um tema que merece presença contínua no debate cultural.
Da Baixada Fluminense para o público digital
“Orun – O Mundo dos Orixás” foi viabilizado pela Lei Paulo Gustavo, com apoio do governo federal e da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Turismo de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
Fundador da Ofabebé Produções, Thiago Xavier é fotógrafo e videomaker. Conforme relatou ao Brasil de Fato, o curta marcou sua primeira experiência com uma produção audiovisual financiada por edital e exigiu sua participação em diferentes etapas do projeto.
A trajetória ajuda a compreender a importância do financiamento cultural: criar condições para que realizadores de diferentes territórios contem suas histórias e encontrem público.
Segundo a reportagem, o filme recebeu reconhecimentos de Melhor Direção e Melhor Filme Experimental em festivais da Baixada Fluminense. Também circulou por espaços de exibição e passou a ser utilizado como material de estudo em uma escola de arte no Rio de Janeiro.
Análise de Gabrielle Tricanico: a beleza dos orixás merece ser conhecida e respeitada
Sou apaixonada pelo mundo dos orixás. Encontro beleza na relação com a natureza, na força da ancestralidade e na delicadeza de uma espiritualidade que merece ser tratada com respeito. É desse lugar de admiração que considero tão relevante a circulação de uma obra como “Orun”.
Há uma riqueza imensa nos saberes preservados pelas comunidades de terreiro. Aproximar o público desse universo exige sensibilidade para reconhecer que cada canto, gesto e símbolo pode carregar sentidos profundos para quem vive essa fé.
Como jornalista, vejo no alcance do curta uma oportunidade de ampliar a conversa sobre representação. Quem conta uma história, de qual perspectiva e com qual cuidado são perguntas essenciais. Quando pessoas ligadas às tradições afro-brasileiras participam da construção de suas próprias imagens, o público tem a oportunidade de conhecer outras narrativas sobre elas.
Também considero fundamental olhar para a natureza com a atenção que esse universo inspira. Águas, matas e outros elementos naturais podem assumir dimensões sagradas nas tradições dos orixás. Essa relação nos convida a refletir sobre cuidado, responsabilidade e respeito à vida.
Enaltecer essa beleza significa reconhecer a dignidade de uma fé e o valor de seus conhecimentos. A liberdade de crença precisa encontrar expressão no cotidiano: na maneira como falamos, educamos, convivemos e acolhemos as diferenças.
O jornalismo cultural tem responsabilidade nessa construção. Dar visibilidade a “Orun” é abrir espaço para a arte, para a ancestralidade e para pessoas que têm o direito de ver sua espiritualidade apresentada com a grandeza e o respeito que ela merece.
Onde assistir a “Orun – O Mundo dos Orixás”
O curta está disponível gratuitamente no canal da Ofabebé Produções no YouTube. Para encontrá-lo, procure pelo título completo: “Orun – O Mundo dos Orixás”.
Serviço
- Filme: Orun – O Mundo dos Orixás.
- Direção: Thiago Xavier.
- Produção: Ofabebé Produções.
- Ano: 2024.
- Onde assistir: YouTube, no canal da produtora.
- Acesso: gratuito.
