Capital teve nove registros a menos que em 2025 e aumento de 36,3% nas prisões por violência doméstica; homicídios e latrocínios também recuaram, segundo a SSP.
Por Gabrielle Tricanico | SEGURANÇA PÚBLICA | SÃO PAULO
A cidade de São Paulo registrou 38 feminicídios entre janeiro e setembro de 2026, ante 47 no mesmo período de 2025. A redução de 19,1% representa nove registros a menos, mas mantém um retrato grave da violência contra a mulher: em média, a capital contabilizou aproximadamente um feminicídio por semana ao longo dos nove meses.
Os números divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo também mostram crescimento nas prisões por violência doméstica. Foram 2.881 agressores presos no período, contra 2.114 no ano anterior — aumento de 36,3%, equivalente a 767 prisões adicionais.
A leitura conjunta exige cuidado. A queda dos feminicídios e o aumento das prisões são indicadores relevantes, mas, isoladamente, não demonstram que a violência doméstica diminuiu na mesma proporção nem permitem atribuir a redução das mortes exclusivamente à atuação policial.
O QUE OS NÚMEROS REVELAM NA CAPITAL
A comparação entre janeiro e setembro dos dois anos mostra recuo nos três indicadores de violência letal apresentados pelo governo:
Indicador Janeiro a setembro de 2025 Janeiro a setembro de 2026 Variação
Feminicídios 47 38 −19,1%
Homicídios dolosos 376 338 −10,1%
Latrocínios 28 23 −17,9%
Agressores presos por violência doméstica 2.114 2.881 +36,3%
Segundo a SSP, os homicídios dolosos e os latrocínios atingiram os menores totais da série histórica para esse intervalo do ano. O recorte corresponde aos primeiros nove meses, e não ao resultado fechado de 2026.
FEMINICÍDIOS EM QUEDA: O QUE AINDA PRECISA SER EXPLICADO
A redução de 47 para 38 registros indica melhora no indicador mais extremo da violência contra a mulher. Entretanto, o balanço apresentado não informa quantas dessas mulheres haviam denunciado ameaças, procurado atendimento ou recebido medidas protetivas antes do crime.
Essas informações são essenciais para avaliar onde a proteção funcionou e onde houve falhas. Também faltam, no material divulgado, dados sobre tentativas de feminicídio, reincidência dos agressores e tempo entre a denúncia e a intervenção das autoridades.
Sem esse cruzamento, não é possível concluir se houve redução mais ampla das agressões ou uma mudança concentrada nos desfechos fatais. Uma avaliação consistente precisa acompanhar tanto as mortes quanto as situações de risco que chegam à polícia, à saúde e à assistência social.
MAIS PRISÕES NÃO EXPLICAM, SOZINHAS, A REDUÇÃO DAS MORTES
O aumento de 767 prisões por violência doméstica representa crescimento da resposta policial medida por esse indicador. Na média mensal, o total passou de aproximadamente 235 para 320.
Há, porém, diferentes hipóteses para esse avanço: maior procura das vítimas por ajuda, mais denúncias, intensificação das operações ou maior cumprimento de mandados. O balanço não apresenta elementos suficientes para determinar o peso de cada fator.
O número de prisões também não informa, por si só, quantos investigados foram condenados, quantos voltaram a agredir ou quantas mulheres permaneceram protegidas depois da intervenção. Para medir o resultado da política pública, é necessário acompanhar o que acontece após a prisão.
HOMICÍDIOS RECUAM, MAS SETEMBRO MOSTRA OSCILAÇÃO NOS LATROCÍNIOS
Os homicídios dolosos passaram de 376 para 338 ocorrências no acumulado, uma diferença de 38 registros. Já os latrocínios — roubos seguidos de morte — caíram de 28 para 23.
No recorte de setembro, os feminicídios passaram de seis para quatro, enquanto os homicídios dolosos recuaram de 50 para 44. Os latrocínios seguiram direção contrária: foram três, diante de dois no mesmo mês de 2025.
Nesse último indicador, a diferença de uma ocorrência corresponde a aumento de 50%. A oscilação mostra por que percentuais calculados sobre números pequenos precisam ser apresentados junto aos valores absolutos: houve alta mensal, apesar da queda no acumulado do ano.
ONDE A VIOLÊNCIA CAIU EM SÃO PAULO?
O resultado municipal não permite afirmar que a melhora chegou de maneira uniforme às zonas leste, sul, norte, oeste e central.
Para uma análise regional mais precisa, é necessário conhecer a distribuição dos casos por distrito, a população de cada território e a localização dos serviços de proteção. Sem esse detalhamento, o total da capital pode esconder áreas com persistência ou crescimento da violência.
Também é preciso respeitar o alcance geográfico do levantamento: os números apresentados são da cidade de São Paulo. Eles não descrevem, automaticamente, a situação do Grande ABC, do Alto Tietê ou dos demais municípios da Região Metropolitana.
Para quem vive nos bairros paulistanos, o resultado concreto da segurança pública depende da capacidade de obter atendimento, denunciar ameaças e receber proteção antes que uma agressão termine em morte.
ONDE BUSCAR AJUDA
Em situações de emergência, agressão em andamento ou risco imediato, acione a Polícia Militar pelo telefone 190.
Para orientação sobre direitos, localização de serviços de atendimento e registro de denúncias de violência contra a mulher, procure o Ligue 180. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados.

