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Lula venceu por aprovação ou Flávio Bolsonaro perdeu por rejeição?

O que as ruas, os debates e a postura dos candidatos revelam sobre o resultado das eleições presidenciais de 2026.

Por Fabiana Teixeira

Lula venceu as eleições. Mas a pergunta que merece uma análise mais profunda é: o presidente conquistou um novo mandato pela aprovação de seu governo ou Flávio Bolsonaro perdeu pela rejeição que provocou ao longo da campanha?

A resposta passa pelas ruas, pelo comportamento dos candidatos e, principalmente, pelos debates que marcaram a reta final da disputa.

O debate da Band pode ter sido um dos momentos em que Flávio Bolsonaro mais comprometeu sua credibilidade diante do eleitor que ainda precisava conquistar.

A estratégia de confronto, com provocações, interrupções e tentativas de desestabilizar Lula, aproximou seu comportamento do estilo político de Pablo Marçal. Em vez de transmitir segurança, equilíbrio e autoridade, Flávio correu o risco de reforçar uma imagem de agressividade e despreparo para o diálogo.

A questão não era demonstrar força. Era demonstrar capacidade de liderança.

E existe uma diferença fundamental entre enfrentar um adversário e tentar diminuí-lo.

Na minha avaliação, Flávio confundiu agressividade com autoridade. O comportamento pode ter agradado aos eleitores mais identificados com seu discurso, mas colocou em risco a confiança daqueles que buscavam uma alternativa de governo.

O candidato que precisava ampliar sua aceitação acabou oferecendo novos motivos para ser rejeitado.

No debate da Globo, houve uma tentativa de correção de rota. Depois de uma preparação intensa, que contou com a participação do governador Tarcísio de Freitas, Flávio procurou apresentar uma postura mais controlada. Mas não conseguiu sustentar integralmente essa mudança.

Ao chamar Lula de “nove dedos”, transformou uma deficiência física do adversário em instrumento de provocação política. No episódio envolvendo a mãe de Ana Clara, criança morta por um disparo de fuzil, sua reação também expôs os limites de uma comunicação que precisava demonstrar sensibilidade diante da dor humana.

Esses episódios não permitem afirmar, isoladamente, que os debates determinaram a derrota. Mas ajudam a compreender como a postura de um candidato pode comprometer a imagem de liderança que ele pretende construir.

A comunicação revela o que o treinamento nem sempre consegue sustentar.

E as ruas?

As ruas deram outra dimensão à eleição. Jovens se mobilizaram, famílias participaram, idosos enfrentaram dificuldades de locomoção para estar presentes nos atos políticos. A disputa deixou de ser apenas uma confrontação entre candidatos e se transformou em uma demonstração intensa de participação popular.

Havia mobilização dos dois lados. Mas também havia sentimentos diferentes por trás dos votos: esperança, identificação, insatisfação, desejo de continuidade e rejeição ao adversário.

Lula conseguiu transformar sua campanha em uma vitória eleitoral, revertendo a desvantagem do primeiro turno. Flávio, apesar de conquistar uma parcela expressiva do eleitorado, não conseguiu reunir os votos necessários para vencer.

Isso não significa que todos os eleitores de Lula aprovassem integralmente seu governo. Tampouco significa que os votos em Flávio fossem apenas de rejeição ao presidente.

A eleição foi mais complexa.

Mas há uma leitura que considero central: Flávio Bolsonaro precisava convencer o eleitor que ainda tinha dúvidas sobre sua capacidade de governar. E, em momentos decisivos, seu comportamento pode ter reforçado justamente essas dúvidas.

O que essa eleição nos ensinou?

Que não basta dominar argumentos, decorar respostas ou ensaiar uma postura presidencial. Liderança exige coerência entre discurso, comportamento e atitude.

Que as redes sociais amplificam confrontos, mas a credibilidade se constrói também pela capacidade de ouvir, respeitar e demonstrar equilíbrio.

E que a população não é apenas espectadora da política. Ela participa, reage, ocupa as ruas e decide.

Na Avenida Paulista, durante o discurso da vitória, Lula afirmou: “Quando um governante não sabe o que fazer, ele pergunta ao seu povo o que deve fazer.”

A frase ganha relevância diante de um país dividido, que exige não apenas respostas, mas disposição para o diálogo.

Lula venceu por aprovação ou Flávio perdeu por rejeição?

Provavelmente, pelos dois movimentos, em proporções que somente pesquisas específicas sobre a motivação dos eleitores poderiam esclarecer.

Mas a eleição deixou uma mensagem importante: a rejeição a um candidato pode crescer não apenas pelo que ele defende, mas pela maneira como se comporta ao defender suas ideias.

A vitória nas urnas encerra a disputa eleitoral. Não encerra o desafio de conquistar confiança.

Porque uma eleição pode ser decidida pelo voto. Mas a autoridade de um líder é construída — ou comprometida — em cada atitude.

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