Flavio Stasi foi colocado em prisão domiciliar em investigação sobre suposto pacto eleitoral com a ’Ndrangheta; acordo com a capital paulista envolve intercâmbio cultural, turismo e formação.
Por Gabrielle Tricanico | INTERNACIONAL / POLÍTICA | SÃO PAULO – ITÁLIA
O prefeito de Corigliano-Rossano, na Calábria, sul da Itália, Flavio Stasi, foi colocado em prisão domiciliar nesta quarta-feira (28), durante uma operação contra a ’Ndrangheta. A cidade italiana firmou recentemente um acordo de cooperação com São Paulo, assinado pelo próprio prefeito e pela secretária municipal de Relações Internacionais, Angela Gandra. A parceria foi divulgada em setembro, menos de dois meses antes da ação policial.
A operação dos Carabinieri, conduzida pelo Raggruppamento Operativo Speciale (ROS) e pelo Comando Provincial de Cosenza, teve 41 medidas cautelares: 24 de prisão em estabelecimento penitenciário e 17 de prisão domiciliar. As ordens foram expedidas pelo juiz de investigações preliminares de Catanzaro, a pedido da Direção Distrital Antimáfia.
O QUE A OPERAÇÃO INVESTIGA
O conjunto da investigação abrange suspeitas de associação mafiosa, homicídio, posse e porte de armas, extorsão, roubo, furto, ocultação da titularidade de bens e favorecimento da imigração irregular, além de pacto eleitoral político-mafioso. As acusações são atribuídas individualmente aos investigados: a presença de Stasi na operação não significa que todos esses crimes sejam imputados ao prefeito.
Segundo a reconstrução da acusação publicada pela emissora italiana La7, a suspeita relacionada a Stasi envolve apoio eleitoral em troca de promessas de contratação na prefeitura ou em entidades vinculadas ao município.
A reportagem aponta que Annibale Matalone, identificado pelos investigadores como ligado a um grupo criminoso de Rossano, teria articulado esse apoio por intermédio de Vincenzo Curia. A hipótese investigativa se apoia em interceptações e registros de encontros. Trata-se da versão da acusação, sujeita à contestação da defesa e à análise judicial.
A investigação começou em 2021, a partir de declarações de colaboradores da Justiça. Também alcança dois homicídios e um suposto esquema de pedidos de contratação de trabalhadores estrangeiros sem intenção real de empregá-los, mediante pagamento para facilitar a entrada ou permanência na Itália. O vereador de oposição Pietro Lucisano também foi colocado em prisão domiciliar.
COMO SURGIU A PARCERIA COM SÃO PAULO
O acordo entre São Paulo e Corigliano-Rossano foi apresentado como uma iniciativa para transformar os vínculos da imigração calabresa em projetos de cultura, turismo, formação e economia. Entre os objetivos divulgados estão intercâmbios para jovens, aproximação entre instituições de ensino e oportunidades para associações e empresas.
A ligação passa especialmente pelo Bixiga, na região central da capital paulista, onde famílias de origem calabresa preservaram tradições religiosas e culturais em torno da Igreja Nossa Senhora Achiropita.
A ANSA informou que a delegação italiana esteve em São Paulo entre 27 de agosto e 2 de setembro. Além de Stasi, participaram Giuseppe Fusaro, Pietro Lucisano, Lidia Sciarrotta e Salvatore Tavernise, acompanhados pela mediadora cultural Andrea Pirillo. A programação incluiu visitas ao Bixiga, à Mooca e a instituições públicas.
O nome de Pietro Lucisano também consta na relação de participantes de reunião institucional divulgada pela Secretaria Municipal de Relações Internacionais de São Paulo. Esse registro documenta sua participação na agenda, sem estabelecer relação entre a visita e os fatos investigados na Itália.
Como primeira iniciativa da cooperação, foi anunciado o acolhimento de seis jovens ligados à comunidade do Bixiga e à Paróquia Nossa Senhora Achiropita, em Corigliano-Rossano, entre 3 e 10 de setembro, para atividades de aproximação cultural e social.
A PARTICIPAÇÃO DE FABIO PORTA
A aproximação entre as comunidades já era discutida antes da assinatura. Em comunicado de 13 de janeiro de 2025, o deputado italiano Fabio Porta (PD) informou ter participado de iniciativas na Calábria relacionadas ao projeto, sob a articulação do grupo parlamentar de amizade Itália–Brasil, presidido por ele.
O texto também menciona o senador Ernesto Rapani como promotor da iniciativa, além de autoridades locais, representantes diplomáticos e instituições religiosas. O registro confirma a atuação de Porta na aproximação, mas, isoladamente, não comprova sua presença na assinatura final do acordo.
O QUE PRECISA SER ESCLARECIDO EM SÃO PAULO
Do ponto de vista da transparência administrativa, o caso torna relevante conhecer a íntegra do acordo: suas obrigações, eventual previsão de despesas, responsáveis pela execução, critérios de acompanhamento e resultados já entregues às duas comunidades.
Não foram identificados, nas informações consultadas, elementos que vinculem o acordo com São Paulo aos crimes investigados, nem que apontem Angela Gandra ou Fabio Porta como envolvidos no suposto esquema. A relação institucional entre as cidades, por si só, não demonstra irregularidade.
Também não foi possível confirmar, no material localizado, eventual decisão da Prefeitura de São Paulo de suspender ou revisar a parceria. A documentação integral do instrumento é necessária para avaliar seus efeitos administrativos e financeiros.
Stasi e os demais investigados têm direito à defesa. As medidas cautelares não representam condenação. Nas fontes consultadas para esta reportagem, não foi localizada manifestação específica da defesa do prefeito sobre as acusações.
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