Relatório aponta trajetória de até 2,8°C de aquecimento neste século; alerta reforça necessidade de reduzir emissões e preparar municípios para calor extremo, chuvas intensas e riscos no litoral
Por Gabrielle Tricanico | MEIO AMBIENTE | SÃO PAULO
O mundo caminha para ultrapassar o patamar de 1,5°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, referência central para limitar os impactos das mudanças climáticas. O alerta do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta quarta-feira (21), evidencia a distância entre os compromissos anunciados pelos governos e as medidas necessárias para conter a elevação da temperatura do planeta.
Para o Brasil, o debate exige respostas que cheguem aos municípios: planejamento urbano, proteção de áreas vulneráveis, infraestrutura e preparação dos serviços públicos. Na capital paulista, no Grande ABC, no Alto Tietê e no Litoral Norte, a análise coloca em discussão como transformar metas ambientais em proteção efetiva para a população.
O Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026 apresenta dois cenários preocupantes. Com as políticas atualmente em vigor, o aquecimento poderá alcançar 2,8°C neste século e continuar avançando depois disso. Mesmo com o cumprimento integral dos compromissos climáticos nacionais, acompanhado da continuidade de esforços semelhantes, a projeção fica em 2,6°C.
São cenários condicionados às decisões dos países, e não uma temperatura futura já determinada. A diferença entre eles mostra que reduzir emissões continua sendo decisivo para limitar os danos.
O que significa ultrapassar 1,5°C de aquecimento global
O indicador compara a temperatura média global com a do período anterior à industrialização. Ele não significa que todas as cidades terão o mesmo aumento de temperatura nem que os efeitos ocorrerão de maneira uniforme.
Também é necessário distinguir um ano excepcionalmente quente de uma mudança consolidada na média do clima ao longo de décadas. O alerta trata da trajetória de aquecimento duradouro e da necessidade de limitar quanto tempo e em que intensidade o planeta permanecerá acima de 1,5°C.
O patamar tampouco funciona como uma fronteira abaixo da qual não existem riscos. Os impactos já ocorrem, e cada fração adicional de aquecimento pode agravá-los.
Calor, chuvas e litoral: por que o alerta importa para São Paulo
As avaliações científicas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostram que o aquecimento intensifica o ciclo da água, altera padrões de precipitação e amplia os desafios associados aos extremos de temperatura. Nas áreas costeiras, a elevação do nível do mar acrescenta pressão sobre comunidades e infraestrutura.
Na leitura regional, essas evidências reforçam a importância de revisar a capacidade de resposta das cidades paulistas. Na capital, no Grande ABC e no Alto Tietê, drenagem, arborização, ocupação do solo e proteção de moradias precisam integrar o planejamento climático.
Para o Litoral Norte e a Baixada Santista, a discussão também envolve a proteção da faixa costeira e a localização de equipamentos e serviços essenciais.
Essa aplicação regional não equivale a uma previsão específica do relatório para cada município. Ela aponta prioridades de gestão diante dos riscos conhecidos. Atribuir um temporal ou uma onda de calor isoladamente às mudanças climáticas exige estudos próprios.
Análise: a distância entre a promessa e a obra
O principal recado político do relatório é a insuficiência da resposta atual. Assinar compromissos internacionais precisa resultar em decisões sobre energia, transportes, produção, florestas e uso do solo.
No âmbito municipal, a mesma cobrança deve alcançar o orçamento. Um plano climático precisa indicar quais áreas receberão intervenções, quanto será investido, quais são os prazos e como os resultados serão medidos.
A análise da Guardiã da Notícia é que a prevenção deve ocupar espaço permanente na fiscalização do poder público. Cabe acompanhar a execução de obras de drenagem, a manutenção de sistemas de alerta, a proteção de encostas e a oferta de alternativas habitacionais para famílias expostas a riscos.
Sem metas verificáveis, a política ambiental perde capacidade de demonstrar resultados. A população precisa saber o que foi anunciado, o que recebeu recursos e o que efetivamente saiu do papel.
Reduzir emissões e adaptar cidades são tarefas simultâneas
A redução das emissões combate a causa do aquecimento global. A adaptação prepara a sociedade para os impactos presentes e futuros. As duas frentes precisam avançar juntas.
Expandir fontes renováveis, melhorar a eficiência energética e conter a destruição de vegetação são medidas voltadas à redução de emissões. Melhorar drenagem, preservar áreas permeáveis, ampliar arborização adequada e fortalecer a Defesa Civil são exemplos de ações de adaptação.
A escolha dessas intervenções precisa considerar as características de cada território. Uma solução para uma área densamente urbanizada pode ser diferente daquela necessária em uma comunidade costeira ou próxima a encostas.
O futuro climático depende das decisões de agora
Ultrapassar 1,5°C não elimina a utilidade das políticas climáticas. Ao contrário, aumenta a importância de conter o pico de aquecimento e reduzir sua duração.
Para as cidades brasileiras, o alerta reforça uma responsabilidade imediata: incorporar o risco climático às decisões sobre moradia, mobilidade, infraestrutura e serviços públicos. O resultado precisa aparecer na proteção das pessoas e na continuidade do funcionamento das cidades.

