Político do Partido Democrático quer suceder Giuseppe Sala em 2027 com moradia acessível, gabinete na periferia e mudanças na política urbana; escolha do nome do centro-esquerda ainda depende da coalizão.
Por Gabrielle Tricanico | INTERNACIONAL | MILÃO — ITÁLIA
Quem consegue continuar morando em uma cidade que atrai investimentos, mas se torna cada vez mais difícil de pagar? É em torno dessa disputa pelo direito de viver em Milão que Pierfrancesco Majorino (PD) lançou sua candidatura à prefeitura, mirando as eleições municipais de 2027 e a sucessão de Giuseppe Sala.
O anúncio ocorreu em 22 de outubro, no Teatro della Quattordicesima, no Corvetto, bairro da periferia milanesa. Líder do Partido Democrático no Conselho Regional da Lombardia e ex-integrante da administração municipal, Majorino propõe abrir uma nova etapa do centro-esquerda, com prioridade para custo de vida, habitação, trabalho e crise climática. A candidatura, porém, ainda precisa atravessar a definição interna da aliança: ele defende primárias, cuja realização depende dos partidos da coalizão.
Quem é Pierfrancesco Majorino
Nascido em Milão em 14 de maio de 1973, Majorino tem 53 anos e uma trajetória ligada às políticas sociais. Foi eleito vereador em 2006 e assumiu a área social da prefeitura em 2011, durante a gestão de Giuliano Pisapia, permanecendo também no governo de Sala.
Depois, exerceu mandato no Parlamento Europeu entre 2019 e 2023. Naquele ano, disputou o governo da Lombardia e passou a integrar o Conselho Regional, onde assumiu a liderança da bancada do PD. Seu retorno à disputa municipal reúne experiência administrativa e o desafio de convencer o eleitorado de que pode mudar prioridades de um campo político do qual ele próprio participou.
Moradia no centro da disputa
A proposta habitacional apresentada por Majorino prevê pelo menos 20 mil moradias em dez anos, com participação direta da prefeitura, cooperação com outras organizações e possibilidade de aquisição de imóveis privados para ampliar a oferta com preços controlados.
No urbanismo, ele defende um novo Plano de Governo do Território, instrumento que orienta o desenvolvimento da cidade, e aumento de pelo menos 20% nos encargos de urbanização — valores cobrados dos empreendimentos para contribuir com infraestrutura e serviços urbanos.
O candidato também propõe uma cobrança sobre mudanças de uso dos imóveis. São medidas anunciadas para alterar a relação entre investimento imobiliário e necessidades dos moradores; ainda precisam ser traduzidas em regras, orçamento e execução.
Contribuição dos super-ricos e gabinete na periferia
Outra frente é exigir maior contribuição de pessoas de grande patrimônio que se beneficiam do regime de flat tax. Majorino vinculou a proposta ao debate sobre uma cidade que, em sua avaliação, dificulta a permanência de trabalhadores essenciais, como profissionais da saúde, policiais e operadores do transporte.
A ideia foi apresentada como diretriz política. As informações consultadas não detalham alíquota, arrecadação prevista ou formato definitivo da cobrança; portanto, não se trata de um tributo já instituído.
Ele também promete abrir um escritório do prefeito em um bairro popular, aproximando a administração das áreas com maior vulnerabilidade.
Segurança, atendimento e combate ao calor
Na segurança, Majorino propõe combinar presença no território, apoio às forças policiais, prevenção e inclusão social. Na assistência, quer ampliar o atendimento domiciliar a pessoas que vivem sozinhas ou em situação de fragilidade e criar um centro municipal de apoio aos cidadãos diante de dificuldades de acesso à saúde.
A agenda ambiental inclui o objetivo de reduzir em dois graus a temperatura das áreas mais quentes da metrópole até o fim do mandato. Entre os caminhos apresentados estão retirada de pavimentação impermeável, energia solar em prédios públicos, comunidades energéticas e mobilidade sustentável. A redução anunciada é uma meta eleitoral, cujo resultado dependerá da implementação e da medição dos efeitos das intervenções.
A divergência com Sala já começou
A sucessão também expõe diferenças dentro do centro-esquerda. Em 2 de outubro, Sala contestou as críticas de Majorino ao excesso de construções e ao peso dos fundos imobiliários. O prefeito defendeu o histórico da administração e cobrou um debate apoiado em dados.
Majorino respondeu que pretendia contribuir para o futuro da cidade, com mais regeneração urbana, áreas verdes e moradia para a classe média. O episódio mostra que a disputa envolve o balanço do atual governo e a definição do modelo de desenvolvimento que a coalizão pretende apresentar em 2027.
Politicamente, a candidatura coloca uma questão no centro da sucessão: como manter a capacidade de Milão de atrair recursos e, ao mesmo tempo, garantir que trabalhadores e famílias possam permanecer na cidade. Essa é a promessa que Majorino terá de transformar em propostas financiáveis e apoio eleitoral.

